Agente cultural / Detentor de saber
Kátia Santos da Silva
Papel social / Função cultural
Guardião da memória | Mediador cultural | Professora da escola pública
Ano
2025
Bairro de atuação
Origem
Ancuri, Fortaleza, Ceará
Descrição
A professora Katia Santos da Silva relata sua trajetória de vida profundamente vinculada à comunidade onde vive e atua. Seu pai mantinha uma pequena bodega no bairro, um comércio modesto, mas orientado por princípios de solidariedade e cuidado com as pessoas da comunidade. Ele vendia produtos de boa qualidade, evitava repassar mercadorias estragadas e, muitas vezes, vendia fiado para idosos e famílias em situação de vulnerabilidade. Mesmo sem retorno financeiro, manteve o comércio como forma de sustento coletivo, priorizando quem mais precisava. Essa experiência marcou profundamente sua compreensão de comunidade, justiça e responsabilidade social.
Katia estudou na mesma escola em que hoje atua como professora e destaca esse percurso como central em sua identidade. Seus três filhos também foram alunos da instituição, o que reforça seu vínculo afetivo e simbólico com o espaço escolar. Para ela, a escola representa um divisor de águas, um lugar de formação, pertencimento e transformação, não apenas individual, mas coletiva.
Ela se define como mulher preta, periférica, mãe solo e professora da escola pública. É filha única e adotada, condição que atravessa sua história pessoal. Relata que sua mãe biológica não pôde criá-la, mas que foi acolhida por outra família, experiência que moldou seus valores de cuidado, gratidão e responsabilidade com o outro. Atualmente, cuida de sua mãe idosa, diagnosticada com Alzheimer, reforçando a centralidade do cuidado intergeracional em sua vida cotidiana.
Katia conta que se casou muito jovem, aos 16 anos, já grávida de sua primeira filha. Posteriormente, viveu um relacionamento marcado por violência doméstica e se separou aos 27 anos, passando a criar sozinha seus três filhos. Esse período é descrito como um momento de ruptura e recomeço. Após a separação, decidiu retomar os estudos e reconstruir sua trajetória profissional.
Antes de se tornar professora, trabalhou em creches e em projetos educacionais, realizando atividades de cuidado infantil. Durante esse período, surgiu a oportunidade de cursar o ensino superior com apoio de bolsa de estudos, o que permitiu sua permanência na formação acadêmica. Ela destaca o papel de professores que a incentivaram a continuar estudando e a acreditar em novas possibilidades de futuro.
A entrevistada afirma que sua experiência pessoal — marcada por dificuldades, superações e vínculos comunitários — orienta sua prática docente. Para ela, ser professora vai além da transmissão de conteúdos: envolve acolher, escutar, perceber dores invisíveis e reconhecer o potencial dos alunos, especialmente daqueles em situação de vulnerabilidade. Relata episódios em que ex-alunos retornam à escola para agradecer o apoio recebido em momentos críticos de suas vidas, o que reforça sua compreensão do papel transformador da educação.
Sua história de vida é atravessada por valores de cuidado, inclusão e solidariedade, aprendidos no convívio comunitário e reafirmados na atuação profissional. Katia expressa orgulho de sua trajetória e de fazer parte da escola pública, entendendo sua atuação como uma forma de devolver à comunidade aquilo que recebeu ao longo da vida.
